
Desde que começaram boatos sobre um novo álbum que a minha cabeça andava em questões. Foram demasiados os anos de interregno entre Hail to the Thief e este In Rainbows. Foram demasiados porque deram asas a muitos rumores, uns mais verdadeiros que outros. Rumores de uma separação que ao fundo do túnel parecia inevitável, muito suportada pelo Eraser, o muito aclamado álbum a solo de Thom Yorke. Efim, já se pode suspirar de alívio, se é que isso é posível enquanto se ouve algum álbum de Radiohead...
A verdade é que este lançamento não foi apenas mais uma lufada de ar fresco que estes senhores de Oxford vieram dar ao mundo musical. Deu muito mais para pensar. O que hoje se fala nem é do próprio álbum nem da sua beleza e genialidade. Mais que certo que este lançamento foi um ponto de interrogação à música que visa o lucro. O futuro não o sei, ninguém sabe, mas por nós pode ser escrito. Pode-se ver como um alerta, uma saturação, um teste (que a maioria de nós chumbou, diga-se de passagem). A verdade é que mais uma vez Radiohead modela o mundo, a expressão musical inicia uma nova forma de viver. E quem vive da música pode virar o rumo da história. Cabe também a nós, meros ouvintes, a responsabilidade. Correndo o risco de ser hipócrita, a verdade é que eu fui da maioria que não pagou para o ter. E pesa mais na consciência o facto de me terem passado a mim, também a nível individual, esse fardo. Chumbei, mas espero remediar.
Mas, de facto, de tanta discussão em torno do tema, que não deixa de ser fundamental, parece cair no esquecimento de que isto que acontece hoje se deveu ao lançamento de um álbum e isso é o mais importante. É na pureza de novas escritas, novas sonoridades, novas invenções que não páram de se reinventar. É música e se há quem viva dela é porque ela existe e oferece a cada novo lançamento um nisto de novidade e avanço intelectual. Forma expressões, cria emoções, suscita catarse. Torna-nos inofensivos, introvertidos quando algo mais profundo é explorado. Talvez seja por isso que Radiohead seja um marco na história da música. Faz tudo isto de forma sublime, intocável, uma viagem sentimental. Este é o sétimo álbum de uma banda inconformada, que sempre necessitou de aprovação própria. É mais uma mudança e esta parece ter demasiada vida própria para se poder controlar. Tal como muitos, eu imaginei um seguimento no experimentalismo eléctronico iniciado no OK Computer e sublimemente modelado em Kid A e Amnesiac. Ingenuamente acreditei assim que embarquei nesta viagem iniciada por "15 Steps", um puro estimulante cerebral com um ritmo desconcertantemente coeso. A luta entre o ritmo electrónico acelerado e a pausada guitarra de Jonny Greenwood encontram a meio caminho as dúdivas e interrrogações deixadas por Thom Yorke. Acaba por ser a música hirónica, a funcionar quase que como um teaser porque o álbum revela-se com muito mais tendências rock. Com "Bodysnatchers", que entra de rompante com uma fúria há muito contida ou "Jigsaw Falling Into Place" cujo tom ansioso revela-se explosivo. Percorrer faixa a faixa este LP revela-nos um mundo de experimentalismo instrumental cuja função é, antes de mais, a estimulação cerebral capaz de nos colocar em dúvida perante a realidade.
Através de um metaforismo faustiano, Thom Yorke coloca-nos em permanente confronto entre acção e pensamento, sentimento de deslocação entre impulso e retracção consciente, seja como acto preventivo ou pensamento a posteriori. Líricas como "Nude" retratam bem a suberania do poder da conciência face a algo carnal como o acto de traição. Aliás, julgo que todo o álbum reflecte todas as esferas que circulam em torno do conceito de relação amorosa. Mais ou menos explícito, com maior ou menor ênfase, a verdade é que nos obriga a uma compreensão/análise sobre a interligação humana. São pequenas e breves histórias de um normal quotidiano. Já aconteceu a todos. Mas é na dúbia interpretação de cada ouvinte que torna as líricas individualistas. É o toque de Midas que muitos aspiram mas são poucos os que conseguem. São gritantes, berrantes, de raiva contida ou calma ensurdecedora. A verdade é que apenas são uma sequência de letras interligadas por palavras que compõem uma frase, mas é impossível ficar-se indiferente.
São efémeros gostos por algo que ainda não foi decapitado. São pequenbas interrogações diárias que a consciência nos coloca. São 10 músicas que nos colocam perante sobressalto em relação às acções diárias. Não é apenas mais um álbum que foi lançado. É Radiohead, apenas um grupos de pessoal com muitas questões. Tal como muitos, quero assistir ao próximo concerto em Portugal, mas até à data esse dia tarda em aparecer. Apenas resta esperar... Enquanto isso ouve-se e desespera-se!
9.3 (Pitchfork rating)
Cheers
A verdade é que este lançamento não foi apenas mais uma lufada de ar fresco que estes senhores de Oxford vieram dar ao mundo musical. Deu muito mais para pensar. O que hoje se fala nem é do próprio álbum nem da sua beleza e genialidade. Mais que certo que este lançamento foi um ponto de interrogação à música que visa o lucro. O futuro não o sei, ninguém sabe, mas por nós pode ser escrito. Pode-se ver como um alerta, uma saturação, um teste (que a maioria de nós chumbou, diga-se de passagem). A verdade é que mais uma vez Radiohead modela o mundo, a expressão musical inicia uma nova forma de viver. E quem vive da música pode virar o rumo da história. Cabe também a nós, meros ouvintes, a responsabilidade. Correndo o risco de ser hipócrita, a verdade é que eu fui da maioria que não pagou para o ter. E pesa mais na consciência o facto de me terem passado a mim, também a nível individual, esse fardo. Chumbei, mas espero remediar.
Mas, de facto, de tanta discussão em torno do tema, que não deixa de ser fundamental, parece cair no esquecimento de que isto que acontece hoje se deveu ao lançamento de um álbum e isso é o mais importante. É na pureza de novas escritas, novas sonoridades, novas invenções que não páram de se reinventar. É música e se há quem viva dela é porque ela existe e oferece a cada novo lançamento um nisto de novidade e avanço intelectual. Forma expressões, cria emoções, suscita catarse. Torna-nos inofensivos, introvertidos quando algo mais profundo é explorado. Talvez seja por isso que Radiohead seja um marco na história da música. Faz tudo isto de forma sublime, intocável, uma viagem sentimental. Este é o sétimo álbum de uma banda inconformada, que sempre necessitou de aprovação própria. É mais uma mudança e esta parece ter demasiada vida própria para se poder controlar. Tal como muitos, eu imaginei um seguimento no experimentalismo eléctronico iniciado no OK Computer e sublimemente modelado em Kid A e Amnesiac. Ingenuamente acreditei assim que embarquei nesta viagem iniciada por "15 Steps", um puro estimulante cerebral com um ritmo desconcertantemente coeso. A luta entre o ritmo electrónico acelerado e a pausada guitarra de Jonny Greenwood encontram a meio caminho as dúdivas e interrrogações deixadas por Thom Yorke. Acaba por ser a música hirónica, a funcionar quase que como um teaser porque o álbum revela-se com muito mais tendências rock. Com "Bodysnatchers", que entra de rompante com uma fúria há muito contida ou "Jigsaw Falling Into Place" cujo tom ansioso revela-se explosivo. Percorrer faixa a faixa este LP revela-nos um mundo de experimentalismo instrumental cuja função é, antes de mais, a estimulação cerebral capaz de nos colocar em dúvida perante a realidade.
Através de um metaforismo faustiano, Thom Yorke coloca-nos em permanente confronto entre acção e pensamento, sentimento de deslocação entre impulso e retracção consciente, seja como acto preventivo ou pensamento a posteriori. Líricas como "Nude" retratam bem a suberania do poder da conciência face a algo carnal como o acto de traição. Aliás, julgo que todo o álbum reflecte todas as esferas que circulam em torno do conceito de relação amorosa. Mais ou menos explícito, com maior ou menor ênfase, a verdade é que nos obriga a uma compreensão/análise sobre a interligação humana. São pequenas e breves histórias de um normal quotidiano. Já aconteceu a todos. Mas é na dúbia interpretação de cada ouvinte que torna as líricas individualistas. É o toque de Midas que muitos aspiram mas são poucos os que conseguem. São gritantes, berrantes, de raiva contida ou calma ensurdecedora. A verdade é que apenas são uma sequência de letras interligadas por palavras que compõem uma frase, mas é impossível ficar-se indiferente.
São efémeros gostos por algo que ainda não foi decapitado. São pequenbas interrogações diárias que a consciência nos coloca. São 10 músicas que nos colocam perante sobressalto em relação às acções diárias. Não é apenas mais um álbum que foi lançado. É Radiohead, apenas um grupos de pessoal com muitas questões. Tal como muitos, quero assistir ao próximo concerto em Portugal, mas até à data esse dia tarda em aparecer. Apenas resta esperar... Enquanto isso ouve-se e desespera-se!
9.3 (Pitchfork rating)
Cheers