07/04/2008

Uma gota de verdade

Mais um dia claro e cheio de cor. Sentado perto da janela tento apanhar um pouco mais de claridade. Folheia-se um jornal entre pérfidas notícias e um fumo de tabaco cada vez mais intenso e condensado. Aguardo por estímulos. Algo que me corra nas veias capaz de me pôr em circulação. Por agora aguardo. Tento exercitar um cérebro já de si cansado de tanto esperar que algo aconteça. Estes cigarros cada vez sabem melhor… Inundo-me de perguntas que não têm resposta. Amor, trabalho, um futuro promissor. Tudo aguarda por um começo e para quando? Quem tem de ir ter com quem? Parece um jogo entre gato e rato e sinto-me a distância criada entre ambos que aumenta exponencialmente. Sufoca-me esta lenta espera de transições quotidianas entre o mau e o mal a menos. A vida desfila perante os meus olhos e faltam palavras para exprimir a sua beleza. Por isso não lhe toco. Apenas a contemplo. Acredito ser demasiado divina para poder ser tocada por alguém tão mundano quanto eu. Então aguardo. Espero eu que uma vida brilhante venha ter comigo. Enquanto, apenas obedeço a padrões supérfluos que nada me dizem mas em que toda a gente acredita. Aguardo por ser gente. Por ser alguém. Perdi a conta na quantidade de raiva que sinto por este ser inamovível. Restam-me pequenos espasmos que me permitem ter um mínimo de qualidade e dignidade. Aguardo, espera inamovível.
Começo a sentir uma falta de relacionamento com a realidade. Sinto as emoções cada vez mais longínquas. Duvido de mim próprio sobre os meus sentimentos. Saberei o que cada um representa? Alegria, tristeza, ódio, amor, paixão. Cada vez mais me são estranhos, distantes. Começam a ser apenas vocábulos utilizados em situações quotidianas entre cigarros, café e trivialidades faladas. O passado evito mas inevitavelmente a ele retorno. Ou a um presente/futuro alternativo. Como seria? E se não tivesse feito? Seguir outro rumo, escolher outra vida. O passado. Monstro. Infindável incerteza. Junta-se o amor e tem-se a combinação perfeita para a destruição humana. Olhar para o futuro e viver o presente. De quem?