Como desejar esquecer tudo o que aconteceu sem o querer? Sinto-me entre o racional e o sentimental sem saber até que ponto esta ideia me atravessa o pensamento. Como odeio contar uma história que tem fim... E por mais factual que seja, não consigo aceitar a realidade que foi ilusão.
O tempo é manipulador da matéria. E com ele multiplicam-se as diferenças de vida. De estágios. Nas raras excepções registam-se atrasos de vida ou adiantamentos precoce. O padrão dita a soma da vida por viver e dela já vivida. Esse é o real desfasamento.
Foi ingénuo pensar que poderia construir uma vida com alguém que já a tinha construído. Não é mais que uma usurpação de uma vida. Não a construção. Mas essa foi a realidade. Apeguei-me a uma vida que não era a minha. E a ilusão foi aceitar. Pelo deslumbramento. Pela tão humana pessoa que apresentava perante mim. Talvez o tempo traga consigo a simplicidade. A forma como encaramos a vida. Mais pacífica.
Foste tu que me permitiste viver um tempo da tua vida Margarida. Porque foste tu. Foste tu que mantiveste um percurso de vida linear, contínuo. Para o meu ser, capturando a realidade de forma distante, essa foi uma ruptura abrupta, foi contra-natura ao meu percurso de vida. E não me refiro a diferenças temporais. Significa no objectivo, no curso, no futuro...
Mas eu não conduzi a minha vida por esse trajecto. E simplesmente tudo tornou-se realidade. Era tudo que queria, a vida perfeita. Mas já estava tudo feito sem ter sido necessário um mínimo do meu esforço... E o nosso futuro?
Apesar dos altos e baixos, das discussões e pazes, ter a genuína capacidade de te olhar nos olhos e sorrir. A rotina e os momentos inesquecíveis. As festas-surpresa, os jantares, peças de teatro, concertos, os retiros de fim-de-semana. E finda a utilidade pública, desfrutar os restos dos dias junto de quem se ama a realizar o que se gosta. A inevitável morte de chegados, as fortes discussões. Mas tudo é vida. De todos. É impossível. Mas foi contigo que escolhi passar por tudo isso. Ou foste tu?
Devia ter-te perguntado pelo teu futuro. Mas a verdade é que passa por um pressuposto muito básico. Ver-te no meu percurso de vida. Deixar que o tempo escorra pelas nossas veias. Eu apenas me ajusto para chegar a esse fim. Mas não traço o caminho. Todas as estradas vão dar a Roma. Seja elas quais forem. E não são as estradas. É Roma. Cada qual tem a sua.
É certo que não deve ser difícil prever um futuro muito provável de uma pessoa quando verdadeiramente a conhecemos, quando nos é revelada a maneira de viver até esse ponto.
O nocturno tormento. A cama é um puzzle e desconheço o meu lugar. Num lado reside um espaço que deveria ser ocupado.
Não consigo continuar assim. De prosseguir. De alguma forma tive de pausar a minha vida. Não me sentia em condições de continuar a minha vida. Resume-se ao que quero ou evitá-lo. Entre o sentimental e o racional. Não te quero rever mas também não sei se tenho consciência desse facto. Não quero sofrer. Porque o teu olhar será um que já expirou Margarida. E não seria mais que um encontro com uma realidade que já constatei mas que não deixa de me atormentar.
É mesmo verdade. Antes de te conhecer sentia-me bem. Não me sentia em paz mas isso também aconteceu só em breves momentos da minha vida. Também não estava propriamente satisfeito com a minha vida mas pequenos planos futuros começavam-se a formar, futuros próximos mas ainda assim futuros. Sentia-me calmo. Agora reflecte-se o mesmo mas de forma mais passiva. Talvez seja esta a minha natureza. Na altura tinha feito as pazes com as minhas perspectivas. A minha situação respondia aos serviços mínimos de imaginação do resto do percurso do meu ser. Iria desejar mais mas naquela altura a realidade era-me aceitável. deixou de ser.
Quero deixar de te amar Margarida. Quero deixar de te lembrar sempre que vejo um pequeno ser Ariana. Até ao fim.
24/08/2013
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