01/09/2008

I

Ainda hoje não sei como tudo aconteceu. Mas eu sei. Vivi. Agora já não. Não mais. Agora é tempo de reflexões. Agora que acordei penso. Capto o rochedo que se propõe. A ausência do verde vivo a permanência do forte cinza. Tudo agora parece avermelhado de um sol que pede descanso. Olho-me agora. Quieto permaneço deitado inexpressível. À espera. Julgo-me no frente. Se fosse maciço destruía-te. A ti e a essa inactividade. Que digo? Eu sou agora a minha essência. Sou de regresso o bruto que uma vida levou a moldar. Seria mais agora cobarde, agora inactivo, auto-destrutivo, mais tudo. Por agora. Pobre velho que não saiu de rapazote. Podemos falar? Podemos dialogar sobre tudo? Agora não te apetece. O nunca deve ser mais correcto. Recolho-me. Passeio-me junto de altiva pensatez. Qualifico a minha eternidade. Não fosse a cor de cal, pareço-me bem. Não fosse a ausência de correria frenética de sangue pareço-me bem. Sim. Pareço-me bem. Apresentável. Bem acomodado parece-me bem. Por favor acorda. Não me apetece ficar só com pensamentos. Revoltam-se a cada nova hipótese. São encruzilhadas onde o meu eu se perdeu na ténue esperança de encontrar o que tem o nome de caminho certo para o teu eu. Mas optei pelo menos certo.
- Dizes bem, optaste por tua opção.
oiço na abertura do olhar do eu. Desculpa não era minha intenção. Claro que sim. Foi puro esse desejo e imediatamente te avassalas. Não te recolher desse teu ser? Reaccionário era o mínimo que te poderia chamar? Porque é que o teu ser não se sobrepôs ao meu? Tudo seria mais fácil. Mas que falas? Tiveste uma vida de esconder? De que te arrependes tanto? Desculpa. Não foi. Claro que foi e sempre será. Passarás o teu fim da mesma forma do teu início de ser. Passarás o teu fim a repetir uma chorada palavra enquanto vermes te criam ridículo. Será até ao fim. Sim é certo meu caro. Até ao Fim.

1 comentário:

Anónimo disse...

Acredito que as "Almas penadas" se reconhecem entre si. Podemos chamar-lhe empatia,identificação,destino,sorte,azar,perspicácia,atracção do abismo...cada um chama-lhe o que quiser.Gosto de lhe chamar "Viver".
Porque quando existimos sem nos reconhecermos nos outros sobrevivemos apenas.È o encontro que nos permite ir mais longe dentro de nós.Por isso aqui fica um fragmento do meu passado criativo, sinal desse reconhecimento que tive ao ler-te

"Quem sou eu ,fugitivo de mim em horas de sofrer?
EU Sou.Só porque aqui vim?Porque tem que ser?
OU serei um breve instante, um louco pensante que não sabe viver"
RC em 1996
CYou