12/10/2011

IVI

Agora que percebo como tudo aconteceu, desespero por um lapso de compreensão. Porque tu, Margarida, foste o mais belo monstro alguma vez criado. Porque tu, de forma inegável, representas o caos. O lógico e racional mundo caótico a que chamamos vida.
Tinha regressado ao estado minimalista da vida. A perfeita harmonia entre o existir e o não ser.
Que curiosidade te avassalou para desejares conhecer-me? E à medida que falávamos, dialogávamos, que percorria os teus pensamentos, desejava perder-me neles. Porque eram simples e pacíficos. Porque eram perfeitos na sua imperfeição. Porque esses pensamentos tinham um traço de ingenuidade que se permitiam em si ser sentimentos. E à medida que o tempo permitia mais te desejava. Mas, na minha insofreável essência não me era permitido actuar, mas sentia um mínimo de satisfação com a imaginação.
Mas tu não. E isso és tu, em toda a tua plenitude. E agiste em conformidade com o teu ser.
E tudo fora como início da escrita, reapredizagem da linguagem, da locomoção, de tudo o que se apreende. Mas de outra forma. Tudo o que vislumbrava era, de uma forma encantadora, novo e curioso. O tempo passava por brechas que não reconhecia. Um admirável mundo novo.
Mas foi o início da ruína. Enquanto percorria esse admirável mundo, seguindo os teus passos, senti-me cada vez mais pequeno, dada a imponência dos vivos que o habitam. Foi aí que tive consciência da verdadeira distância que nos separava. Senti ser impossível ser habitante desse mundo. Comecei então a fazer o que sempre me habituei. Com uma calma doentia iniciei o encerramento da parte sentimental que cria, mantém e desfaz as relações. Incessantemente questionavas o meu estado e eu permanecia calado, desprovido de voz. Como é possível dizer a alguém que se ama que vai ser incapaz de a fazer feliz? Que não se é mais do que um falhanço que a espaços se concede a honra de ser um mero erro? Para isso seria necessário coragem, coisa que um covarde é desprovido.

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