05/08/2010

Histórias a Preto e Branco

A porta fechou-se e o pranto irrompeu.

Na sala, ainda o calor dos corpos intensos do êxtase. Dos abraços, do frenético desejo, do perfume e da fusão. Da noite sem sono, das longas e sôfregas conversas e da viagem do paraíso ao inferno.

Percorri as imagens, em retrospectiva, desde o primeiro minuto, da primeira visão.

A irritante fila do café. A espera pela dose diária de cafeína para funcionar e subitamente a descarga de adrenalina pelo encontro. Dez minutos de ficção na minha cabeça. O filme, a banda sonora, muitos actores secundários, dois actores principais, um amor inevitável.

Acordei com uma mão a dar-me o troco dos cinco euros, a chávena de café a escaldar em cima dos meus dedos e uma voz indisposta. Obrigada e volte sempre. Voltaria de certeza, mas para te ver. Não mais poderia perder de vista o teu olhar.

Agora com a porta a fechar-se atrás de ti, duas certezas iniciavam aquele dia. A primeira de que aquele era o verdadeiro amor. A segunda que nunca mais queria voltar para lá. A terceira, que tinha dez minutos para disfarçar a catástrofe na minha alma e chegar ao novo trabalho a 30 km de distância. Como é que era possível continuar a viver conjugando as três coisas.


Inicio. Quotidiano. Evito relembrar a felicidade. Retornar incessantemente à infelicidade. Percorro este insignificante caminho que dois dias antes era tudo o que desejava. Intransigente humano. Para que serve agora o que tanto desejava? Tudo se tornou insignificante. O plano era perfeito. Tinha conseguido o feito de retornar a vida de um ponto despejado de sentimentos. Entrava num percurso materialista e independente. Tudo era meu e permanecia ao meu alcance.

Anuncio-me e aguardo pela chamada. Trabalho burocrata, de escritório, horário fixo, seguro de saúde e carro da empresa. Tudo o que era tão simples se tornou agora vazio de significado.

Deste-me uma razão para viver e espero que me expliques porquê.


Nem sequer precisava tentar justificar o porquê da tua importância. Irrompeste sem explicações dentro de mim. Como um pensamento recorrente e latejante. Do qual quanto mais tentava livrar-me mais terreno tomava. Creio que é assim. Dizem. Que se distingue dos demais. Dos equívocos. Que parecem servir-nos, como uma peça de roupa que nos fica bem ao espelho mas que nos aperta aqui e ali e que acabamos por despir com alívio. Tu ao contrário foste tomando posse das minhas horas e tornaste-te não uma mera peça de roupa, mas o meu próprio corpo. Em fusão.

Aqueço as mãos, numa chávena de chá matinal entre reuniões. À minha volta ninguém adivinha o ódio bastante para trucidar quem por mim passe. Sorrio aos cumprimentos sem expressão. Formatação, é a palavra de ignição com que tenho percorrido os dias, as semanas nesta nova personagem. Não tem sido muito diferente de estar num jogo. Virtualmente funcionante, a subir gradualmente os níveis, a conhecer cada vez mais as regras. Nem me estou a sair nada mal. Começo até a sentir um certo prazer em nada esperar. Sem desejar nada e sem construir nada, não tenho de viver o incessante exercício do controlo.

A cumprir o plano de manter neutros os sentimentos, vivo em compromisso temporário com a existência, enquanto espero pela tua explicação do porquê. Chegue ela de forma chegue. Porquê.

Se irrompeste dentro de mim acendendo a luz, convocando os meus sentidos pelas palavras, fazendo aparições em todos os lugares interessantes, permitindo-me descobrir cá dentro uma força que nunca julguei. Porque te mandei embora e não tenho dúvidas?


Porque fui eu embora? Devia ter gritado, esperneado, soltar a raiva de querer. Mas não. Quieto e impávido arrumei as minhas coisas enquanto me sentia cada vez mais desmembrado e destruído a cada segundo que passava. Meticulosamente ia empacotando tudo o que de meu pertencia e como te queria guardar, dizer que eras minha. Mas não o podia, não desta forma. Não fazia sentido no meu eu lutar pelo teu amor, não que não o merecias, mas não podia vislumbrar tudo isto como uma guerra. A vida sim é uma guerra, que acabou de perder o sentido de ganhar.

Era tudo perfeito. Trabalho burocrata, de escritório, horário fixo, seguro de saúde e carro da empresa. Tudo o que era tão simples se tornou agora vazio de significado.

Deste-me uma razão para viver e espero que me expliques porquê. Porque agora nada faz sentido. Sinto-me agora distante de tudo e tudo distante de mim. As expectativas matam e esfolam à medida que passam pelas veias do ser.

Talvez me caiba a mim aceitar as distantes realidades entre os nossos seres. Mas como posso eu aceitar uma coisa que já sabia? Que quis contrariar com toda a minha força? À medida que te foste aproximando tornaste-te aos meus olhos mais humana, falível… e era isso que adorava em ti. Esse teu calmo mar de ser. Urge-me dizer que a desconfiança era muita por não acreditar na possibilidade de existência de algo tão pacífico, tão límpido e verdadeiro.

Mandaste-me embora porque percebeste que não foi minha a força que detinhas, mas sim de um equívoco.

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